quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A mão no escuro

Mesmo no barulho silencioso da noite podia ouvi-la. Era como uma presença oculta observando seus movimentos. A cada passo que dava, era como se a coisa se aproximasse mais, diminuindo gradativamente a distância entre elas. Esperava, num misto de medo e ansiedade, o calor da respiração quente e ofegante em sua nuca. Sentia que ela estava ali, bem perto dela.

Já desde nova tinha esta sensação, mas nunca havia sido tão intensa como nos últimos dias. Estava a pensar se corria e fugia da coisa misteriosa, que parecia deixar o ar cada vez mais denso e rarefeito ao seu redor, ou se parava e aguardava o encontro que anunciava ser iminente.

Muitos diziam que era sua imaginação, outros riam tolamente de suas conversas, mas ninguém sabia o tamanho de seu medo. O medo de algo que se desconhece é por vezes muito mais inquietante do que o temor de algo conhecido. Conhecer aquilo que se teme, de certa forma, nos dá segurança, pois assim pode-se imaginar uma defesa ou contra-ataque; portanto, temer aquilo que está oculto, que nem sabe-se bem se existe ou não, nos deixa em posição de total vulnerabilidade, uma vez que não sabemos de onde e nem quando virá o golpe. Este é um dos piores medos que existem: o medo dentro de nós. O medo do inexplicável. Mais especificamente, o medo do inexplicável dentro de nós.

A esta altura ela própria já não tinha tanta certeza da sua sanidade mental, como tantos outros. Sentia-se espremida por essa sensação. Tentava puxar o ar e respirar fundo, na ideia de assim diminuir sua agonia e ansiedade. Mas o que ela ansiava? Esta era a sua dúvida.

Às vezes fechava e abria os olhos lentamente, acostumando as pupilas ao escuro, e aguardava para ver se conseguia enxergar a criatura misteriosa e, assim, antecipar-se aos seus passos. Outras vezes apenas sentava-se num canto e esperava. Talvez fosse aquela a hora do seu encontro, talvez não. Até quando sofreria pelo mal de não saber o que viria a ser os seus segundos e minutos seguintes?

O uivo do vento que entra pela janela só piora o cenário! O frio gela a sua espinha, mas ela permanece decidida a ficar e aguardar seu encontro sombrio. Estar sozinha em casa pode não ter sido uma ideia tão boa assim, mas agora não havia mais tempo para pensar nisso. A decisão estava tomada: era agora ou agora. Não suportava mais esse calor em suas orelhas, quase um sussurro quente. A lua estava cheia e alta num céu limpo e estrelado, de onde obtinha a única iluminação em seu quarto: o pouco de luz do luar que passava por entre os galhos da árvore. Acreditava que estar no breu total seria o melhor modo de marcar esse encontro. A décima-segunda badalada do relógio retumbante tornava a situação mais tensa, e ela já praticava novamente o exercício da dúvida. Talvez uma luz baixa de abajur ajudasse, se ela tivesse um!

À medida em que os minutos se passavam, sua inquietação aumentava, porém dessa vez era a aparente ausência da criatura que a incomodava, e não sua presença. Teria desistido de revelar-lhe sua face, ou estaria aguardando que ela abandonasse seu estado de vigília? Pôs-se então a procurar por entre os cantos de seu quarto. Todo local era um possível esconderijo! Debaixo da cama, entre suas cobertas já remexidas, dentro das gavetas de sua escrivaninha, em seu cesto de roupas sujas, em todos os lugares procurou. Faltava apenas um: dentro do seu guarda-roupas! E era justamente lá que ela desejava que a criatura não estivesse de jeito algum. Tinha assistido a filmes de terror e suspense demais, e os guarda-roupas eram os piores lugares, pois por algum motivo alguém sempre achava que dali não sairia nada de mal, mas ela não tinha tanta certeza assim. Era ali o ultimo local para olhar.

Recuou alguns passos, andou um metro à esquerda e pegou seu crucifixo que estava em cima do criado-mudo. Ela não era do tipo religioso, mas agora tudo era válido! Voltou à posição em frente às portas do móvel de madeira antiga com dobradiças rangentes. Respirou fundo por três vezes, agarrou forte a cruz com o homem entalhado na madeira e cercado de contas alternadas e decidiu seguir com seu plano. Deu o primeiro passo e o piso de tacos antigos reclamou seu peso desproporcionalmente apoiado sobre ele, resultado de uma quase desistência. Em cada movimento que fazia, surgia uma pegada de suor no chão quando ela mudava o peso do seu corpo para o outro pé e seguia com mais um passo e mais outro. Era agora. De uma vez iria abrir as portas do guarda-roupas, esperando surpreender a criatura. Ou ser surpreendida por ela!

Suas mãos sentiram o frio do metal que formava o puxador das portas. Impressão ou a temperatura tinha caído mais dois graus? Não era hora de pensar nisso. Fechou os olhos, respirou e sem mais cogitar hesitar, puxou para si as portas do esconderijo final da criatura que a atormentou por toda a sua vida, mas não viu nada. Tudo o que sentiu foi um puxão em seus punhos. Dedos esqueléticos e gelados encontraram-se com suas mãos e entrelaçaram-se em seus dedos. Num súbito momento o tempo parecia ter congelado. As lágrimas que escorriam em seu rosto pareciam ter paralisado e ela desejou que nada daquilo fosse real. Pediu com toda sua força para acordar, mas como condição mínima para acordar, ela deveria estar dormindo, e havia dias que não conseguia sequer cochilar. Seu corpo parecia não apresentar mais tônus muscular e nesse momento viu a gravidade vencê-la aos poucos até encontrar-se com o chão. Não podia acreditar que sua vida acabaria ali. Não podia. Lutou com toda sua força para escapar daquela mão que, apesar de esquelética, apresentava uma força descomunal. Com muito esforço conseguiu soltar-se e pôde pensar em gritar! Porém, a criatura não esperara tanto tempo para agir à toa, e não desistiria tão facilmente!

Segundos passaram-se como horas, o tempo andava rápido e devagar ao mesmo tempo. Encontrando forças não sabe de onde, conseguiu levantar e correu para a porta do seu quarto. Precisava pedir socorro. Ao sair, sentiu dessa vez a mão agarrar seu pé, fazendo-a cair novamente, rolando escada abaixo e chegando inerte ao último dos 23 degraus. Quase em seu último suspiro, arrependeu-se de ter escolhido aquele fatídico momento de ausência dos seus pais para resolver encarar "seu medo".

Silêncio mortal…

Já era avançada a madrugada quando seus familiares chegaram em casa e a encontraram no chão. Seus olhos estavam revirados para cima, e tinha vários ossos quebrados devido ao acidente. Sua roupa estava rasgada. Sua pulsação era quase zero. Por um nanômetro de sorte fora encontrada com vida, apesar de tudo.

Depois do ocorrido, nunca mais foi a mesma moça esquisita da casa de número 1237, da Rua dos Carvalhos. Fora diagnosticada pela equipe médica, quase que para justificar o episódio, com psicose esquizofrênica com tendências suicidas e tinha medo até de sentir medo. Agora recebe, apenas mensalmente, visitas esporádicas de sua família em seu novo endereço: o Instituto Psiquiátrico da cidade, onde vive num quarto "especial" que, para sua segurança…, é sem guarda-roupas.


Flávio Augusto Albuquerque

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma vida em cinco minutos*

A última vez que reparou na hora eram 4h37'. Nem tanto pelo horário em si, mas porque era um relógio de bolso feito em ouro maciço, furtado do seu único cliente da noite. O único que pôde bancar um "encontro" com ela! Ele sequer percebera a suave e leve mão descer pelo bolso interno de seu paletó. Talvez estivesse excitado demais para imaginar que aquele abraço quente e carinhoso tinha terceiras intenções. Todavia, aquele era o enlace perfeito para que ela lhe tomasse o relógio sutilmente. Era prática comum na zona de baixo meretrício, mas ela não gostava disso, só fazia para garantir o "extra" para pagar os seus informantes.

Já havia tempo que o rendimento do ofício não era o mesmo. Não por falta de qualidade em seus serviços, mas, devido à escassez de trabalho e à longa recessão pela qual passava o país, aumentou a oferta de "damas de companhia", e, com isso, poucos clientes aceitavam pagar tão bem, como aquele que ela acabara de atender! Ele era um contador. Parecia ser homem distinto. Ela ouvira seu pai falar dos contadores que faziam os balanços e balancetes de suas empresas. Dizia que era sensato tê-los como aliados, pois "com dinheiro não se brinca!". E dinheiro os contadores levavam bastante a sério.

Lembranças antigas que se esvaíam com a balançada de sua cabeça, que soltava os cachos presos e tingidos de preto, emoldurando seu rosto pálido, ainda belo, mas carregado de maquiagem... batom vermelho carmim... cílios duplos e alongados. Uma pinta como detalhe final, perto do canto esquerdo do lábio superior.  Aquela linda menina de outrora, agora tornara-se mulher... Mulher da vida. As tias solteironas e encalhadas com quem teve que viver depois da morte dos seus pais, cobravam dela um marido rico que as tirasse daquela situação de miseráveis!

Sozinha no mundo, revoltada com a vida, fugiu de casa jurando vingar-se de quem matou seus pais. Enrolando-se em seu xale velho, seguiu sem caminho certo. Vivera muitas e muitas vidas até chegar onde chegou, e por último era mulher da noite. Mas agora, finalmente, já estava perto da hora de amanhecer... Era chegada a hora de acordar. Acordar desta noite sem fim, de anos de busca! Estava na hora de dar um fim nisso tudo. Era preciso! E tinha que ser agora! Era a hora da justiça!

Borrifou em si o perfume doce-almiscarado, retocou sua maquiagem e delineou os olhos. Prendeu bem o espartilho, e, por baixo, a arma que conseguiu na semana anterior, do general reformado que caiu embriagado na cama e... só dormiu! Melhor para ela! Agora de volta à vingança... Depois de anos de busca, finalmente descobriu quem mandou mexer nos freios do carro do seu pai, na noite em que o Cadillac S42 Preto capotou serra à baixo, e explodiu...! Agora apenas alguns cômodos os separavam... Ela, a mais bela e cara dama do maior bordel da cidade, aonde iam todos os homens influentes da nata da sociedade! Ele, o seu alvo sem rosto. O crápula que tirou da doce menina toda a magia de uma vida inocente e feliz ao lado dos seus pais.

Seguiu estritamente seu plano. Abriu a porta de seu camarim, jogou seu cachecol de plumas para trás e montou seu sorriso. Desceu as escadas aos risos travessos de menina levada. Entrou no quarto onde estava o homem que ela ia matar à queima-roupa, olhando fixo nos olhos dele, observando a vida dele ir embora aos poucos...

Ao entrar no quarto, lá estava, de costas e envolto em uma nuvem de fumaça de charuto, o velho grisalho com cheiro de conhaque. Era ele... do jeito que descreveram para ela.

Ela agiu como tinha planejado... Fechou a porta com duas voltas na chave, soltou a fivela que prendia o revólver, e correu aos saltinhos sapecas para sentar em seu colo e prendê-lo entre as pernas. Olho no olho, mão no cano gelado da arma, a mira entre os olhos do miserável... E parou! Não podia ser... Era impossível! De um pulo saiu do colo do velho, que estava mais branco que fantasma... Talvez até o fosse! Mas como assim? O homem que ela tinha em sua mira, que ela buscou por tantos anos, que passou por tanto sofrimento para finalmente vingar-se... Era seu pai! Seu próprio pai!

Rápido ele tentou explicar-se e pedir perdão à filha. Disse que tudo foi planejado para que ele recebesse o dinheiro do próprio seguro de vida; que ela deveria ter ido com ele naquele mesmo dia; que sentia muito ter se separado dela; que ele ia achar um meio de voltar para buscá-la, e ficou desesperado quando descobriu que ela tinha fugido; que ele nunca parou de procurá-la; que sua mãe não o perdoara pelo que fez e morrera de desgosto menos de um ano após a sua morte forjada, e que ela sempre fora contra esse plano, mas ele não podia ficar pobre, e estava falido e precisava do dinheiro do seguro, e... E num tempo de cinco minutos, toda a tramoia fora desarmada diante dela. Seu pai implorava perdão. Chorava agora por todos os anos de ausência...

Toda a sua vida sofrida de pequena órfã passou diante dos seus olhos cor de caramelo, assustados... Atônitos... Vagos.

A moça virou-se então para seu pai e sorriu. Alisou seu rosto enrugado e os cabelos grisalhos, agora ralos, que há tanto tempo não via... Então despediu-se e puxou o gatilho! Um tiro na testa dele! Seu pai já havia morrido anos atrás! Aquele era apenas uma carcaça de um nada! Finalmente pôde acabar com a vida do homem que matou seu pai... ele próprio! Ela, agora, sentia-se vingada!

Flávio Augusto Albuquerque
*1º Lugar no IX Sarau, Prosa, Verso e Fotografia - CCBB-BH, em 26/08/2014.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Erro

O erro


Noites em claro pensando,
Em busca de uma razão,
Uma explicação para chegarmos até aqui.

O erro foi meu?
O erro foi seu?

Como mergulhado em areia movediça estou,
Afundando mais para dentro de mim mesmo
A cada arfada de ar que meus pulmões exigem,
Que meu corpo pede.

Meu corpo... que um dia já pediu o teu,
Hoje clama por liberdade... Por paz.
Este é o fim? Se for assim, tudo bem!
Se não for, que mal tem?

Apenas quero a mim,
Pois nunca deve-se oferecer o risco a si próprio
Da aflição da rejeição!

Porém, desde quando razão e coração trabalham juntos?
Se assim fosse, tudo seria mais fácil!
Como ponteiros concatenados,
“Tic-Bum, Tac-Bum”…
Para cada pensamento, um bombear cardíaco.

Sofrimentos poupados, gozos vívidos.
Correspondência total entre o querer e o poder,
O desejar e o viver!
Não mais dor, não mais sofrer.

O erro foi meu?
O erro foi seu?

Quão bobo e arteiro é este coração,
Que busca sem poder,
Que deseja sem querer,
O amor de outro ser que não seu próprio ser.

É um estar enamorado, um estar encantado,
Um estar vislumbrado na ilusão e no desejo.
Desejo que cega, desejo que fortalece,
Desejo que enfraquece.

Qual é o erro?
Errado é amar?
Errado é viver?
Errado é ser?
Errado é não ser feliz!

E seguindo vai o erro em sua própria indagação:
O erro foi meu?

O erro foi seu?


Flávio Augusto Albuquerque

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Amanhã...

Amanhã será melhor! Eu sei que vai!

Amanhã os pássaros terão uma canção nova para cantar,
As nuvens irão passear no céu, como algodões doces brancos num mar azul,
Os ônibus não atrasarão, o trânsito fluirá, os carros pararão para a senhorinha atravessar,
Eu sei que amanhã tudo mudará!

Amanhã todos terão comida em suas mesas, e morada para à noite descansar,
O sorriso no rosto de todos se apresentará, e mais luz irá brilhar!
Os amantes se encontrarão, sem culpa de apenas amar... sem trair. Apenas amar!
Os pombos irão descansar, e não precisarão sujar as ruas. Pelo menos não amanhã!

Amanhã o palhaço irá tirar da sua cartola o mais belo ramalhete de rosas campestres!
Amanhã haverá mais sorriso, mais felicidade... nos hospitais, nos lugares escuros!
Lá haverá luz! Muita luz! Somente amor e luz!
Amanhã o dia vai ser bom! Sei que vai!

Amanhã é dia de brincar, é dia de correr, dia de voar! Deixar o ar passar pelos cabelos...
Amanhã é dia de ser livre! É dia de ser feliz! É dia de amar; de amar e ser correspondido!
Amanhã vai tocar uma música bonita a cada esquina, em cada rua, uma mais bela que a outra!
Amanhã os tijolos das estradas serão dourados, e todo caminho será para Oz!

Amanhã não haverá doença no mundo, amanhã não haverá pragas...
Amanhã não haverá maldade e nem tristeza!
Amanhã o novo cederá lugar ao velho; gentileza e compaixão serão carros chefes, com o amor!
Amanhã só as lembranças boas inundarão as nossas memórias, as nossas mentes!

Amanhã as esperanças numa redenção justa e amorosa serão reforçadas e provadas!
Amanhã não haverá não! Apenas sim!
Sim para a felicidade! Sim para o amor! Sim para a bondade! Sim para a caridade!... Sim!
Não? Não para a guerra! Não para o ódio! Não para a violência! Não para o mal! Isso não!

Amanhã será melhor! Eu sei que vai!

Flávio Augusto Albuquerque

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Camélia Branca - Beleza Perfeita

Seu rosto era belo! Tinha contornos perfeitos, numa simetria divina, com maravilhosas amêndoas no lugar dos olhos e um morango onde era para ser a boca! Sua tez era firme e viçosa, com a vantagem da plena juventude e a firmeza e doçura de um pêssego. A cor era de um alvo puro que sequer o mais branco dos cisnes se equivaleria. Sua beleza era tão perfeita que nem os anjos do céu seriam dotados de tanta 
perfeição! Quiçá apenas o próprio Criador assim O fosse!

Os cabelos são um capítulo à parte! Desciam em madeixas da cor do breu em camadas lisas e brilhantes como pérolas, da cabeça até a cintura, formando um perfeito "V" ao final; e completando a moldura esplendorosa do seu rosto uma franja picotada, que tanto dava um ar suave e angélico de menina, como acentuava os traços da mulher fatal, daquelas do tipo realmente matador e sensual, com cada piscadela que abalava até a mais firme das fortalezas; e não tinha cavalo de Tróia que se equiparasse àquela destruição sumária que todos sentiam ao olhar e vislumbrar tal beleza, que destroçava o sujeito de dentro para fora, com a batida cardíaca final no último instante antes dos olhares se cruzarem, e a partir de então estaria condenado o pobre homem a amar a moçoila pelo resto da vida e até a eternidade!

Tinha o corpo esculpido em perfeito 1m78cm de altura, muito bem distribuídos, com os pedaços de carne salientes justamente onde deveriam estar, e o restante bem adequado ao modelo de seu esteriótipo! Suas duas saliências mamárias, com o tamanho ideal das minhas mãos, e bicos róseos, que lembravam o bico de uma chupeta de neném e uma mamadeira, faziam de mim seu total e entregue bebê envolto em seus braços, no calor do seu colo!

Pela parte de trás tinha uma excelente anca, que encantava qualquer ser humano vivente na face da Terra com o seu balançar! Era o equilíbrio perfeito da balança da Deusa Têmis, e era muito justa e firme em sua continuidade de todo o dorso, finalizando com dois morros que eu escalava quantas vezes fosse necessário até alcançar o ápice!

Suas coxas... Ah suas coxas...! Dali eu extraia o meu absinto viciante, enebriante, me embebedava no contorno das coxas brancas e lisas! Um ponto sequer de marca eu desafiava qualquer um a encontrar! Perfeitamente trabalhadas e presas em sua cinta-liga, fazendo do simples um sensual irresistível. Impossível ficar apenas admirando. Era preciso tocá-las, em todas as dimensões!

Seus pés... dois pedacinhos de nuvens trazidos pelos querubins barrigudinhos e com nádegas nuas e cabelos cacheados, para completar sua delicadeza. Eram pés de bailarina executando perfeitamente um "pas-de-deux" em seu caminhar... Poderiam da planta de seus pés onde pisassem nascerem flores de lótus, como o lendário príncipe Sidarta ao nascer! Mas comparar aqueles pés aos pés do nobre príncipe seria diminuir demais a maravilha aveludada que eram aqueles pés delicados e bem formados. Suaves em seu pisar. Seguros quando se firmavam e ficavam na ponta dos dedos para chegar a tocar seus lábios nos meus!

E para completar, duas mãos de fada! Mãos de veludo, mãos de menina-moça, mãos delicadas, guardadas do frio em suas luvas que combinavam, ninguém sabia, com a seda que formava as suas roupas de baixo! Segredo combinado e revelado apenas a mim, quão sortudo era! Mãos somente expostas com o puxar com os dentes dedo a dedo de suas luvas de seda geralmente nas cores preta, vermelha ou branca, a depender do seu vestido, e, é claro, das suas vestes íntimas, que seriam somente por mim conhecidas no final daquela tarde, início da noite, varando madrugada afora em pleno êxtase! Dois corpos ébrios de paixão, loucos de amor, sôfregos pela próxima e pela seguinte e pela subsequente variação de posição amorosa, carinhosa em seu perfeito e sublime encaixe de sua metade em minha metade! Metades de um mesmo ser, metades de um mesmo viver, metades que formavam um só coração puro de amor e lascívia.


Flávio Augusto Albuquerque

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Na calada da noite.

É na calada da noite onde tudo acontece.

Enquanto todos dormem, fico remoendo na cama.
Troco de lençol, mudo a fronha, largo o travesseiro,
Jogo o travesseiro para os pés, depois volto a agarrá-lo.
Tudo isso na calada da noite.

Enquanto tento contar meu rebelde rebanho de ovelhas,
Ouço o ressonar dos que dormem. Ah quanta inveja...
Distraio-me meio minuto e lá se vão mais 5 ovelhas perdidas,
Perco as contas e a contagem recomeça, na calada da noite.

cri-cri dos grilos na minha cabeça, que repetem e repetem,
Do início do dia até quando anoitece.
Eles não param, a vida não para: problemas, soluções, problemas sem soluções...
Do barulho da manhã... até a calada da noite.

Passa o dia, entra a tarde, e mais algumas horas... lá vem ela: a noite!
Mas a culpa não é dela. Não! Ela não tem culpa.
A noite é apenas... a noite. É o fim do dia, início de um novo amanhecer.
Os problemas sim. Esses persistem. Persistem como o ruído dos grilos.
Os grilos, que não saem da cabeça. Mais barulhentos que grilos falantes!
Mas eles falam! Eu os ouço. Ouço sim...
Mas os ouço melhor na calada da noite!

A noite é benevolente com aqueles que dormem,
E cruel com os insones! Passa rápido quando fechamos os olhos...
Mas tem a capacidade de ser eterna para aqueles que, como eu,
Contam o tic-tac do relógio... Angústia a cada minuto que passa.
É o presságio de um dia perdido.
Se não bastasse a noite perdida, ela carrega o dia consigo.
O cansaço preso no corpo como um sanguessuga,
Sugando sua vida, sua felicidade, sua disposição, sua vitalidade.
E tudo isso acontece por causa da calada da noite...

Calada da noite barulhenta,
Gritando aos ouvidos os afazeres do dia seguinte,
Quase faz desdém daquilo que perdemos enquanto estamos acordados.
Os barulhos não cessam... Aumentam!
Aumentam até tornarem-se gritos...
Gritos de desespero dentro da minha cabeça.
Gritos... Gritos...

Gritos na calada da noite!


Flávio Augusto Albuquerque

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Último Suspiro...

A respiração rápida, entrecortada.

A cabeça erguida em busca de ar.

Sábia natureza que nos ensina a erguer a traqueia para liberar a passagem do oxigênio.
Aos poucos foi parando... Acalmando ou definhando, em busca do último suspiro. A última arfada da noite!

Meia-noite e um... Novo dia. A luta continua e o desespero aumenta. Já não sei pelo que rogar. Descanso eterno ou respiração estável? A essa altura os milagres já não enriquecem a fé nem fervem o peito na busca da cura. Agora é apenas o "não-tão-ruim" ou o "menos pior"!

O ferimento estancou. O branco do osso aparente, agora está cheio de pontos, gaze e faixas. O rosto, irreconhecível. A família lá fora não tem noção exata do que passa aqui. Médicos e enfermeiros poupam os detalhes acreditando ser melhor. Inútil! Cedo ou tarde saberão da gravidade, do real estado.

Nessas horas o tempo passa rápido quando se tenta não pensar no pior, e caminha a passos lentos quando se espera uma melhora. São momentos de pura aflição. Ninguém entra... ninguém sai. Apenas os médicos e enfermeiros têm autorização para estar aqui dentro.

Tubos, cânulas, soros, monitoram os sinais vitais, trocam de turnos, verificam nível de oxigênio, medem pressão, medem temperatura, testam os reflexos... Ainda sem reação das pupilas à luz... As horas se passam, os turnos se revezam, mas a única alteração de verdade é o ‘tic-tac’ do relógio... A hora está chegando.

Não! Não agora! Não ainda! Eu não quero ir! O ar está se esvaindo como areia nas mãos de uma criança...  Eu sou uma criança! É injusto comigo! Mas o que seria justo? Ficar neste mundo cruel, egoísta, violento, corrupto... É... Acho que é justo sim que eu vá! Já não me importo mais com os médicos, enfermeiros, e todos no quarto. Quero apenas dar um beijo nos meus pais e ir... Seguirei andando até onde tiver luz. Lá finalmente encontrarei paz, e toda dor terá fim!
  

Flávio Augusto Albuquerque