quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A mão no escuro

Mesmo no barulho silencioso da noite podia ouvi-la. Era como uma presença oculta observando seus movimentos. A cada passo que dava, era como se a coisa se aproximasse mais, diminuindo gradativamente a distância entre elas. Esperava, num misto de medo e ansiedade, o calor da respiração quente e ofegante em sua nuca. Sentia que ela estava ali, bem perto dela.

Já desde nova tinha esta sensação, mas nunca havia sido tão intensa como nos últimos dias. Estava a pensar se corria e fugia da coisa misteriosa, que parecia deixar o ar cada vez mais denso e rarefeito ao seu redor, ou se parava e aguardava o encontro que anunciava ser iminente.

Muitos diziam que era sua imaginação, outros riam tolamente de suas conversas, mas ninguém sabia o tamanho de seu medo. O medo de algo que se desconhece é por vezes muito mais inquietante do que o temor de algo conhecido. Conhecer aquilo que se teme, de certa forma, nos dá segurança, pois assim pode-se imaginar uma defesa ou contra-ataque; portanto, temer aquilo que está oculto, que nem sabe-se bem se existe ou não, nos deixa em posição de total vulnerabilidade, uma vez que não sabemos de onde e nem quando virá o golpe. Este é um dos piores medos que existem: o medo dentro de nós. O medo do inexplicável. Mais especificamente, o medo do inexplicável dentro de nós.

A esta altura ela própria já não tinha tanta certeza da sua sanidade mental, como tantos outros. Sentia-se espremida por essa sensação. Tentava puxar o ar e respirar fundo, na ideia de assim diminuir sua agonia e ansiedade. Mas o que ela ansiava? Esta era a sua dúvida.

Às vezes fechava e abria os olhos lentamente, acostumando as pupilas ao escuro, e aguardava para ver se conseguia enxergar a criatura misteriosa e, assim, antecipar-se aos seus passos. Outras vezes apenas sentava-se num canto e esperava. Talvez fosse aquela a hora do seu encontro, talvez não. Até quando sofreria pelo mal de não saber o que viria a ser os seus segundos e minutos seguintes?

O uivo do vento que entra pela janela só piora o cenário! O frio gela a sua espinha, mas ela permanece decidida a ficar e aguardar seu encontro sombrio. Estar sozinha em casa pode não ter sido uma ideia tão boa assim, mas agora não havia mais tempo para pensar nisso. A decisão estava tomada: era agora ou agora. Não suportava mais esse calor em suas orelhas, quase um sussurro quente. A lua estava cheia e alta num céu limpo e estrelado, de onde obtinha a única iluminação em seu quarto: o pouco de luz do luar que passava por entre os galhos da árvore. Acreditava que estar no breu total seria o melhor modo de marcar esse encontro. A décima-segunda badalada do relógio retumbante tornava a situação mais tensa, e ela já praticava novamente o exercício da dúvida. Talvez uma luz baixa de abajur ajudasse, se ela tivesse um!

À medida em que os minutos se passavam, sua inquietação aumentava, porém dessa vez era a aparente ausência da criatura que a incomodava, e não sua presença. Teria desistido de revelar-lhe sua face, ou estaria aguardando que ela abandonasse seu estado de vigília? Pôs-se então a procurar por entre os cantos de seu quarto. Todo local era um possível esconderijo! Debaixo da cama, entre suas cobertas já remexidas, dentro das gavetas de sua escrivaninha, em seu cesto de roupas sujas, em todos os lugares procurou. Faltava apenas um: dentro do seu guarda-roupas! E era justamente lá que ela desejava que a criatura não estivesse de jeito algum. Tinha assistido a filmes de terror e suspense demais, e os guarda-roupas eram os piores lugares, pois por algum motivo alguém sempre achava que dali não sairia nada de mal, mas ela não tinha tanta certeza assim. Era ali o ultimo local para olhar.

Recuou alguns passos, andou um metro à esquerda e pegou seu crucifixo que estava em cima do criado-mudo. Ela não era do tipo religioso, mas agora tudo era válido! Voltou à posição em frente às portas do móvel de madeira antiga com dobradiças rangentes. Respirou fundo por três vezes, agarrou forte a cruz com o homem entalhado na madeira e cercado de contas alternadas e decidiu seguir com seu plano. Deu o primeiro passo e o piso de tacos antigos reclamou seu peso desproporcionalmente apoiado sobre ele, resultado de uma quase desistência. Em cada movimento que fazia, surgia uma pegada de suor no chão quando ela mudava o peso do seu corpo para o outro pé e seguia com mais um passo e mais outro. Era agora. De uma vez iria abrir as portas do guarda-roupas, esperando surpreender a criatura. Ou ser surpreendida por ela!

Suas mãos sentiram o frio do metal que formava o puxador das portas. Impressão ou a temperatura tinha caído mais dois graus? Não era hora de pensar nisso. Fechou os olhos, respirou e sem mais cogitar hesitar, puxou para si as portas do esconderijo final da criatura que a atormentou por toda a sua vida, mas não viu nada. Tudo o que sentiu foi um puxão em seus punhos. Dedos esqueléticos e gelados encontraram-se com suas mãos e entrelaçaram-se em seus dedos. Num súbito momento o tempo parecia ter congelado. As lágrimas que escorriam em seu rosto pareciam ter paralisado e ela desejou que nada daquilo fosse real. Pediu com toda sua força para acordar, mas como condição mínima para acordar, ela deveria estar dormindo, e havia dias que não conseguia sequer cochilar. Seu corpo parecia não apresentar mais tônus muscular e nesse momento viu a gravidade vencê-la aos poucos até encontrar-se com o chão. Não podia acreditar que sua vida acabaria ali. Não podia. Lutou com toda sua força para escapar daquela mão que, apesar de esquelética, apresentava uma força descomunal. Com muito esforço conseguiu soltar-se e pôde pensar em gritar! Porém, a criatura não esperara tanto tempo para agir à toa, e não desistiria tão facilmente!

Segundos passaram-se como horas, o tempo andava rápido e devagar ao mesmo tempo. Encontrando forças não sabe de onde, conseguiu levantar e correu para a porta do seu quarto. Precisava pedir socorro. Ao sair, sentiu dessa vez a mão agarrar seu pé, fazendo-a cair novamente, rolando escada abaixo e chegando inerte ao último dos 23 degraus. Quase em seu último suspiro, arrependeu-se de ter escolhido aquele fatídico momento de ausência dos seus pais para resolver encarar "seu medo".

Silêncio mortal…

Já era avançada a madrugada quando seus familiares chegaram em casa e a encontraram no chão. Seus olhos estavam revirados para cima, e tinha vários ossos quebrados devido ao acidente. Sua roupa estava rasgada. Sua pulsação era quase zero. Por um nanômetro de sorte fora encontrada com vida, apesar de tudo.

Depois do ocorrido, nunca mais foi a mesma moça esquisita da casa de número 1237, da Rua dos Carvalhos. Fora diagnosticada pela equipe médica, quase que para justificar o episódio, com psicose esquizofrênica com tendências suicidas e portadora de agorafobia: o medo de ter medo. Agora recebe, apenas mensalmente, visitas esporádicas de sua família em seu novo endereço: o Instituto Psiquiátrico da cidade, onde vive num quarto "especial" que, para sua segurança…, é sem guarda-roupas.


Flávio Augusto Albuquerque