segunda-feira, 21 de março de 2011

Bela Fera

Bela Fera

Fera, um sujeito que nem sempre teve essa "fama de mau" e que, pelo contrário, estava mais para "o principe perfeito" que para "fera" propriamente dito, de tão cansado, não era nem mais a sombra daquilo que fora um dia! Agora andava pelos arbustos sozinho, procurando ali um resquício de beleza que o fizesse sorrir e desmanchar sua cara abusada e triste. Quem sabe se de repente uma rosa sobrevivera àquela vida largada, e pudesse dar à ele de novo um pouco de felicidade e jovialidade, que há tanto tempo já não sabia o que era!


Quiçá, se acaso encontrasse, o coitado já nem soubesse mais reconhecer beleza alguma, que fosse diferente da sua eterna e bela Amada!


Já havia passado anos e anos... houveram guerras, tragédias, e Fera nada podia fazer. Acompanhara tudo do alto de sua torre: famílias desamparadas, corpos multilados, roupas aos frangalhos... mas ele mantinha-se inerte! Apenas a observar! "A dor... faz parte do prazer. Não existe dor que não cesse no prazer, e não existe prazer que não se acabe com a dor! A dor nos faz crescer!" Dizia a si mesmo, querendo convencer-se disto.



Mas Fera sempre estava lá em sua janela..., pontualmente ao meio-dia...! Passava meia hora, uma hora, às vezes até duas horas, e depois recolhia-se... Quando acordava ia observar pela mais alta torre, e esperar o retorno do seu amor, de sua cara-metade... que prometera voltar, de trem! Não foi assim exatamente uma promessa, mas ao nosso amigo agradava imaginar que havia ali uma possibilidade de volta. Gostava de crer que seu amor um dia retornaria.



E assim foi...! Ele continou sua rotina por dias, semanas, meses, anos, e já contavam-se décadas de espera! Mas Fera ainda acreditava na volta do seu grande amor! "Deve ter havido algum imprevisto!" Tentava consolar-se, olhando as horas no seu relógio de bolso, que tinha sido herança de seu avô!... E assim, insistia em sua espera!



Os cabelos já não eram os mesmos de outrora... agora estavam ficando ralos e com luzes prateadas em todo lado. A barba... grisalha como os cabelos, mostrava o quanto o tempo aguardando sua amada tinham-no tornado cada vez menos "belo" e cada vez mais "fera"! A angústia incessante pela volta de seu amor causou-lhe o que chamavam popularmente de "dor no mucumbuco", ou seja, dor lombar, ali no coccix! Isso causado por tanto esperar sentado no alto da mais alta torre! E seu amor... nada! Pobre, tolo e apaixonado Fera!
Ah...seu amor!...sua cara-metade...! Não esquecia dela nem um só segundo! Ela era perfeita! Tinha um "quê" de inocência no olhar, com um toque de malícia ao beijar, com sua delicada boca em formato de coração, que se destacava ainda mais quando surgiam aquelas covinhas angelicais nas bochechas, capaz de despertar o furor da tentação em qualquer cristão! Bastava um olhar levemente tímido e meio sorriso, e o nosso belo e amável Fera caía, entregue em seus braços! Ambos ficavam, Fera e sua amada, totalmente entregues ao calor da paixão e do amor que sentiam um pelo outro! Como num instante mágico, dois corpos tornavam-se um!...



Mas...naquela infeliz tarde de fevereiro, lá foi-se o seu amor! Guardando e levando consigo o segredo da beleza do Fera: seu coração, seu amor!
E pôs-se a indagar-se agora a própria Fera: "...era mesmo preciso partir? Era mesmo necessário o desmanche de tal sincronia perfeita do 'tic-tac' que tínhamos eu e minha amada? Tantos planos, tantas promessas, tanta vida ainda restava para ambos, juntos... Tudo transformou-se em uma doce ilusão!". E seguia triste a pensar...



Como um ritual, toda manhã ele olhava na caixa de correios, ansioso por algo, um bilhete que fosse, mas que tivesse sido escrito de próprio punho aquilo que lhe traria de novo a razão de viver! Bastava um "...eu te amo! Estou voltando..." E no mesmo instante sua felicidade estaria restaurada!
E foi divagando nisto que notou, ao olhar-se no espelho, o quão velho já se aparentava! De tanto esperar, esqueceu-se de cuidar de si mesmo, esqueceu sua vida!
"Oh! E agora, o que pensaria o meu grande amor caso chegasse e me encontrasse deste jeito, com os cabelos desgrenhados, a roupa toda suja...?!" Resolveu então banhar-se, trocar aqueles maltrapilhos pedaços de pano que o vestiam, e pentear os ralos cabelos...



Porém, como era de costume, antes de ir tomar banho, caminhou até a caixa de correios para dar uma espiadela... E para sua surpresa, finalmente uma correspondência do seu amor! E dizia, dentre outras coisas "...chegarei hoje, no final do dia! Ass: Teu eterno amor."!



Correu, então, feliz da vida...! Tinha que arrumar-se para receber de volta em seu castelo, finalmente, seu amor, e queria ele estar impecável! Mas a espera foi tanta, que tinha sido muito tempo! A emoção foi tão forte, tantos anos esperando seu amor voltar, que Fera esqueceu-se de que sua vida não parou para esperar este momento junto com ele! O tempo passou sem perdão!... seu corpo envelheceu... e agora fazia chegada a hora que todos nós, jovens ou não, iremos um dia passar... Era a hora da Morte beijar-lhe a face e levar consigo o último suspiro de vida que restava à Fera! O doce, pobre e velho Fera, agora era morto. Tinha tanto a dizer, tantas declarações e tantos 'eu-te-amos' guardados dentro de si, à espera do cumprimento daquela esperança de volta...



Fatidicamente, a cena que a nossa personagem tão ansiosamente aguardada encontrou ao chegar, foi: roupa passada e engomada posta à cama, um belo jantar preparado em sua homenagem, e um corpo estendido no chão. O corpo do seu amado Fera, que morreu justamente no dia do seu retorno! O Fera, que aprendeu a mascarar sua beleza numa carranca, e somente o beijo apaixonado do seu amor poderia devolver-lhe a beleza ao rosto, desta vez estava com aspecto sereno. Parecia estar apenas dormindo. E estava, é bem verdade! ... mas em outro plano! Desta vez Fera estava livre! Não mais precisaria esperar pela volta de quem partiu sem mais nem menos... Agora, ele teria a eternidade para viver, sem a sua amada, mas feliz consigo mesmo! Sem mais o tormento e a indecisão do retorno ou não do seu amor!
E o seu amor... seu 'grande amor', no afã de ganhar o mundo, perdeu aquele que mais a amou! Ganhou aquilo que seus olhos viam e almejavam, mas perdeu-se por dentro! Deixou corromper-se pela imensidão do mundo afora, e esqueceu-se de que já tinha tudo que precisava bem ali, em sua volta, ao seu lado: "Oh Bela Fera!"... E só agora, ao perceber tal quadro estampado diante de seus olhos, reconheceu o tamanho do amor que sentia por aquela Fera! Mas já era tarde, e ela nada mais poderia fazer. Fera esperou, acreditou, continuou confiando no retorno do seu amor, mas a Vida é sábia e tratou de mandar logo a Morte garantir que não mais houvesse sofrimento na vida daquele pobre coitado. Agora havia apenas a beleza da eternidade! Fera viveria então a felicidade eterna, sem mais preocupações se teria ou não sua amada de volta, uma vez que na Eternidade amor não lhe faltaria. Ele já não precisava mais ocupar sua mente com quem o abandonou! E restava agora à sua amada apenas aguardar que a Morte voltasse ao castelo, e beijasse também a sua face! E torcer para encontrá-lo no além!
Até lá... muito ainda estaria por vir, e a sua amada muito teria a refletir!...


(Flávio Augusto Albuquerque)

3 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito...

Professor Fábio disse...

Por que será que a inspiração chega mais e melhor quando estamos tristes....gostei do texto!

Thulinho disse...

Mt trágico, prefiro os finais felizes. :P

Tá mt Tim Burton, queria mais Spielberg kkkkkkkkkk